sábado, 27 de março de 2010

Chips para salvar a Amazônia

SÃO PAULO - Aviões não tripulados, robôs e até os supercomputadores do Google são as novas munições para combater o desmatamento na Amazônia


Vista do alto, a paisagem de muitos pontos da Amazônia é chocante. Em vez do tapete verde formado pelas árvores, avistam-se clareiras de terra remexida por tratores e arrasada por motosserras, além de diversos focos de queimadas. Em solo, a vista de quem percorre uma das muitas estradas clandestinas revela espaços ocupados pela expansão agrícola e pecuária, atualmente o principal problema da Amazônia. Além de reduzir as emissões de gás carbônico, o governo brasileiro precisa conter o avanço do desmatamento ilegal. Esse combate tem nos céus um grande aliado. Lá está uma das principais armas para conter as emissões. É o satélite CBERS-2, que registra, a cada dois dias, alterações na densidade da floresta amazônica a uma altitude de pelo menos 778 quilômetros da superfície terrestre. Ele é um dos bons exemplos nacionais de tecnologia adotada contra o desmatamento.

As informações captadas pelo satélite são enviadas aos computadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Cada pixel das imagens equivale a 250 metros quadrados de floresta. O equipamento faz parte do sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), que desde 2004 alerta os órgãos de fiscalização sobre novos focos de desmatamento. Há 20 anos, os 4,1 milhões de quilômetros da Amazônia que ficam no Brasil são vigiados do espaço pelo INPE. Há quase um ano, o monitoramento foi estendido ao Cerrado e à Mata Atlântica.

A expectativa é de que nos próximos anos mais sistemas de alta tecnologia integrem as rotinas de combate à derrubada de árvores. A redução do desmatamento é o centro de uma série de ações do Governo Federal para diminuir as emissões de gás carbônico no país. Em um estudo apresentado na Conferência do Clima (COP-15), em Copenhague, o INPE estimou que em 2020 a contenção do desmatamento da Amazônia faça o nível de emissões de gás carbônico cair em 560 milhões de toneladas. A estimativa é de que em 2020 o país emita 1,7 bilhão de toneladas de CO2 — 1 bilhão a menos do que emitiria sem as ações de contenção.


O INPE já deu o primeiro passo para isso. Até 2012, pelo menos dois novos satélites prestarão serviço para o sistema Deter. O Amazônia-1 e o CBERS-3 serão capazes de enviar imagens com resolução de 40 e 60 metros, respectivamente. A promessa é de que os dados tenham uma precisão cinco vezes maior que a atual. É com base nos dados de satélite analisados pelo INPE que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) faz a fiscalização da Amazônia.

As formações de nuvens registradas nos meses de chuvas são agora um problema superado para identificar os indícios de desmatamento. Um acordo assinado no ano passado com a Agência Espacial Japonesa permite que o Ibama receba imagens diretamente do satélite Alos durante o período de chuvas. Ele usa radares para mapear a Terra. “Os sensores ópticos, utilizados pelo INPE até agora, funcionam como máquinas fotográficas. Eles precisam da luz do sol para fotografar o planeta”, diz George Porto Ferreira, coordenador-geral de zoneamento e monitoramento ambiental do Ibama.


Por enquanto, os dados recebidos são analisados pelo próprio Ibama e combinados às informações que chegam do INPE. Mas o INPE também tem interesse em usar os dados do satélite japonês. “Estamos em fase de testes. Com esse sistema será possível fazer a cobertura completa da região e enviar dados para o Ibama com uma frequência maior”, afirma Dalton Valeriano, coordenador do Programa Amazonas do INPE.


Espião nos céus


Em breve o monitoramento por satélite terá aviões não tripulados como aliados. É o mesmo modelo usado pela defesa dos Estados Unidos. Eles farão parte das estratégias de combate aos crimes ambientais no Brasil. Em outubro passado, a Polícia Federal (PF) adquiriu, por 345 milhões de reais, uma frota de 15 aviões da empresa israelense Israel Aerospace Industries (IAI). Um deles já está no Brasil e outros seis chegam até dezembro.

A partir de uma base a até 1 000 quilômetros de distância, o piloto poderá controlar o avião por 37 horas ininterruptas. Equipado com duas câmeras e radares, o Veículo Aéreo Não Tripulado (VANT) pode captar imagens a uma altitude de 10 000 metros. Com as câmeras será possível visualizar até informações de um crachá. Seus radares poderão detectar mudanças de temperatura nas áreas monitoradas e alterações do perfil do terreno.


Para receber e analisar todos esses dados, a PF criará centros de controle da frota. Em alguns casos, porém, o avião enviará informações de uma área diretamente para as equipes que estão na região. “O VANT tem um sistema de comunicação criptografada capaz de cobrir uma área de 200 quilômetros de raio”, diz o delegado Alessandro Moretti, diretor do Centro de Inteligência da PF. Os aviões não tripulados também vigiarão favelas de São Paulo e do Rio de Janeiro, entre outras missões. Além desses aviões, o Ibama pretende contratar outros quatro (tripulados) para fiscalizar a região amazônica. Assim será possível flagrar crimes ambientais quase em tempo real.


Floresta chipada


O uso de etiquetas RFID é outra estratégia para impedir o comércio ilegal de madeira. Desde outubro do ano passado, um projeto piloto no Mato Grosso está testando a viabilidade técnica e econômica desse tipo de sensor. Em parceria com o Instituto Ação Verde, o Centro das Indústrias Produtoras e Exportadoras de Madeira do Estado do Mato Grosso (Cipem) implantou os chips a uma altura de 1,30 metro em 2 400 árvores da Fazenda Carandá, em Nova Mutum. O município já liderou a lista dos que mais desmatam a floresta amazônica. As principais atividades econômicas locais são a plantação de soja e a criação de galinhas e porcos.

A preocupação em identificar a madeira está no desmatamento ilegal. “Muita gente usa os planos de manejo sustentável para esquentar a madeira de origem ilegal — ou seja, corta uma árvore não legalizada, mas utiliza o registro de uma que poderia ser retirada da floresta”, diz Paulo Henrique Borges, superintendente executivo do Instituto Ação Verde. Isso ocorre porque ainda não existe uma fonte segura de dados do manejo florestal.


Durante a elaboração do plano de manejo, o engenheiro florestal usa um aparelho de GPS para registrar os dados de cada árvore. O equipamento usa Windows Mobile, tem leitor de RFID, acesso à internet e recursos de comando de voz. A tecnologia de leitura dos chips pode ser instalada em pontos de fiscalização fixa. “Se um caminhão passar com velocidade de até 120 quilômetros por hora, será possível verificar todos os chips das madeiras”, diz Borges. A meta do projeto é que em 2012 os consumidores — inclusive os europeus, acostumados a comprar madeira brasileira — possam adquirir a madeira do Mato Grosso e rastrear toda a cadeia de produção. “Isso confere transparência e credibilidade aos produtos”, afirma Júlio Bachega, diretor-executivo do Cipem.


O fiscal é você


No futuro, iniciativas como a do RFID estarão mais conectadas à internet. Na COP-15, Rebecca Moore, responsável pelo uso social do Google Earth, apresentou uma ferramenta desenvolvida em parceria entre o Google e o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). A plataforma Earth Engine funcionará como uma espécie de camada do Google Earth, com imagens de satélite e informações atualizadas do desmatamento na Amazônia. “Será fácil integrar o Earth Engine com outras tecnologias, como as redes sociais. Estamos projetando uma API aberta que permitirá que organizações gerem e compartilhem informações sobre o desmatamento em tempo real, pela internet”, afirma Rebecca.

O lançamento da primeira versão do Earth Engine, prevista para este ano, inaugurará uma era da preservação ambiental baseada em redes sociais. É o que Tasso Azevedo, assessor do Ministério do Meio Ambiente, chama de redes de monitoramento colaborativas. Uma das ideias é criar um ambiente virtual com os dados do Earth Engine que permita que usuários leigos façam as análises de satélite de maneira colaborativa. Hoje, o trabalho é feito por pesquisadores e leva 15 dias para ficar pronto. “Em uma rede social, em um dia tudo estaria mapeado”, afirma Azevedo. “Se você tem um celular com GPS, basta tirar uma foto, coletar as informações da área e enviar diretamente para a rede.”


A proposta não está longe da realidade. Até o final do mês, o Imazon lançará um projeto de uso de celular para monitorar o desmatamento. “As pessoas poderão receber SMS com informações sobre desmatamento em sua região”, diz Carlos Souza, pesquisador do Imazon e um dos idealizadores do Earth Engine. No início, o recurso será útil para os planos de ação de municípios que apresentam níveis críticos de desmatamento.

Com todos esses recursos, a clássica cena de ativistas abraçando árvores deverá ser mais rara. Abrir o celular, tirar uma foto ou ajudar a analisar imagens de satélite será uma estratégia muito mais fácil e eficiente para manter as florestas em pé.


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